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Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 21h39
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Festival Mozart

            Encantamento é a palavra que melhor calha às sensações do expectador ao sair do Concerto Oficial - Festival Mozart promovido pela FUNJOPE, no último dia 28 de novembro de 2008, sexta-feira, no Cine Bangüê. A Orquestra de Câmara da Cidade de João Pessoa - OCCJP, sob a regência do Maestro argentino Miguel Angel Gilardi, executou excelentemente peças de Wolfgang Amadeus Mozart, tendo por repertório desde a desconhecida Serenata Notturna em Re M. à conhecida ópera A Flauta Mágica.

            É uma pena que um concerto como este seja tão raro. Não fosse a persistência de certos setores governamentais, nada teríamos de música erudita - o que é lastimável, expressão de uma educação musical desviada. Mas o assunto é outro, e não devo divagar, porque as atenções devem se voltar para a OCCJP, seu maestro e, sobretudo, para argentina Gabriela Cecilia Guzzo e a paraibana Maria Juliana - solistas da noite.

            Fiquei muito impressionando com a força do canto das duas. Na ária Lamento de Pamina, trecho da ópera A Flauta Mágica, Gabriela Guzzo demonstrou um equilíbrio prefeito da voz, sustentando-a harmonicamente nos momentos mais agudos. Maria Juliana, por outro lado, quando executou a Ária de Cherubino, da ópera Bodas de Fígaro, apesar de não ter demonstrado a serenidade de Gabriela, foi mais apaixonada e intensa no colorido de seu grave feminil.

            O momento clímax - como era de se esperar - foi o dueto que as duas fizeram - ou "rivalizaram". Tratava-se da Sull Aria, também das Bodas de Fígaro - uma peça de beleza lírica despojada. Uma e outra executaram seu canto com perfeição e deram ainda mais força à afiada OCCJP. Mas, ainda que as duas solistas tivessem se ombreado no estilo, fiquei mesmo embevecido com a atuação de Maria Juliana, que se mostrou tão elegante e, acima de tudo, apaixonante - imaginei, inclusive, como é que ficaria na sua voz a difícil Sprechgesang do Pierrot Lunaire de Arnold Schoenberg...

            Foi uma sexta-feira atípica no cenário cultural da cidade de João Pessoa. Saí de lá - como havia dito - encantado, com a esperança de ter a oportunidade de, quem sabe, ouvir outras vezes a OCCJP e suas duas solistas juntas, qualquer que seja o repertório, de Mozart à Webern, mas desde que seja erudito, para que possamos acabar com o estigma de que estamos chagados: o de sermos um país de surdos-músicos.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 10h24
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Rita no Pomar

             Lançado este ano pela Editora 7Letras, Rita no Pomar, romance de Rinaldo de Fernandes, transita entre diacronia e sincronia. Não atribuo a estes termos o mesmo sentido que a Semiótica e a Lingüística costumam usar, mas faço uso deles aqui para indicar categorias de unidade de tempo narrativo, a partir do que a estrutura da história confessional da personagem Rita é construída.

            Pode parecer, à primeira vista, um estilhaço desordenado de episódios, sobretudo diante das frustrações reticentes e recônditas de Rita, que, solitária em uma praia fictícia do litoral paraibano – a praia do Pomar –, passa as horas vagas ao lado de Pet, seu cachorro de estimação, lembrando do passado, de sua vida em São Paulo e de seus amores perdidos, André e Pedro.

            O leitor, então, vai identificando que a narrativa, embora episódica, tem uma marcação de tempo definida, principalmente linear. Além do “monólogo-a-dois” (como bem identificou Silviano Santiago no pósfacio ao livro) entre Rita e seu cachorro, é apresentado um diário, onde o tempo se torna cristalino, pois, cronologicamente, Rita vai pondo no papel tudo o que se passou durante o dia. E é aí que o trânsito entre diacronia e sincronia mais se explicita.

Neste diário, Rita não se restringe a contar os fatos do dia, mas as lembranças que lhe surgiram quando ela conversava com Pet. É como se ela estivesse revivendo o passado mediante seu relato naquele “monólogo-a-dois” e, pondo-os por escrito no diário, conferisse a eles a solidificação de uma experiência revivida, ainda que sob as reticências de seus pensamentos inconfessados.

Tem-se, então, uma sincronia e diacronia entre passado e presente. Ao tempo que a narrativa se desenvolve temporalmente até a confissão de Rita sobre os motivos que a levaram para a praia do Pomar (o primeiro registro do diário é 23 de janeiro, concluindo-se em 26 de abril), ela se desenvolve atemporalmente pela recomposição do passado, cuja lembrança faz Rita, finalmente, confessar os crimes que cometeu.

O trânsito entre diacronia e sincronia, portanto, enquanto elemento estrutural de Rita no Pomar encontra na confissão o seu ponto de convergência. E não poderia ser diferente, dado que a personagem de Rita, como August Brill do romance “Man in the Dark” de Paul Auster, é vítima de um passado que a assola no presente e que ela mesma, como ré confessa, foi a “única” responsável por ele existir.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 11h01
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Man in the Dark

Man in the Dark (Henry Holt, 2008), o mais recente romance do escritor norte-americano Paul Auster, é a narrativa de uma noite insone do crítico literário August Brill, 70 anos, que, vitimado por um acidente de carro que o deixou em uma cadeira de rodas, passa todas as noites narrando para si ficções enquanto a insônia o aflige. A história basicamente se desenvolve sem qualquer interlocutor presente, quando, já ao final, Brill recebe em seu quarto sua neta, também insone, que o faz confrontar o passado, a exemplo da lembrança problemática de sua vida conjugal.

É justamente os atropelos da vida que faz com que Brill se dedique à ficção durante as noites de insônia. Construindo-a, ele busca se distanciar das amarguras de sua filha, de sua neta e de suas memórias. Mas o pulso de suas narrativas não é forte o suficiente para conter a insipidez de sua vida; Brill as interrompe ao menor ruído no interior da casa ou por um simples lapso de memória, algum personagem ou objeto imaginado que o faz lembrar de algum episódio de sua biografia.

            Sobre o entrelaçamento de imaginação e memória é que o romance de Paul Auster ergue sua estrutura. Conquanto seja uma espécie de monólogo, a narrativa de August Brill é entrecortada por narrativas paralelas, tal como o mundo em que vive o seu então personagem da noite narrada, o mágico Owen Brick, que, de uma hora para outra, vê-se numa realidade alternativa, em que os Estados Unidos estão em Guerra Civil entre separatistas e o Estado Federal.

São como histórias “de guerra. É só deixar a guarda baixar, que elas vêm rasgando sobre você, uma por uma por uma...”, diz Brill.

A vida de familiares, amigos e conhecidos de August Brill vão, assim, entremeando-se a sua e a de suas criações, estando sempre relacionada a guerras em que os Estados Unidos estiveram presentes – da Segunda Guerra à atual no Iraque. E quanto mais Brill se afunda nestas narrativas, à medida que a noite vai se aprofundando até o amanhecer, mais e mais o tom amargo da prosa de Man in the Dark se intensifica, alcançando, ao final, sua redenção, embora esta seja um tanto blasé.

E não importa o destino que as coisas tomam, pois como disse Brill a sua filha Miriam, citando verso da filha de Nathaniel Hawthorne: “o estranho mundo continua”.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 20h36
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Nação Zumbi

            Há bandas que projetam em um de seus integrantes as forças de suas virtudes. Acredito que os Titãs, por exemplo, perderam bastante com a saída de Arnaldo Antunes no início dos anos 90. Identicamente aconteceu com o Barão Vermelho, quando Cazuza, entre 1984 e 1985, decidiu iniciar a carreira solo, lançando à época um dos melhores álbuns de Rock em língua portuguesa, o disco “Exagerado” – por sinal, contendo músicas que seriam incluídas no então novo disco do Barão.

            A Nação Zumbi parecia trilhar para o mesmo destino com a morte de Chico Science (CS) no carnaval de 1997. Pelo que eu lembro (tinha apenas 14 anos), muita gente vaticinou que terminaria ali o grupo, pois seu maior interlocutor (sobre quem se projetavam as virtudes da banda) morrera sem que houvesse alguém para substituí-lo à altura. Além disso, o que mais poderia o Manguebeat (ou bit) alcançar? Parecia que a curva que matou Chico Science era longa demais e sem saída... Mas só parecia.

            Ao longo dos anos seguintes, a Nação Zumbi foi entortando as “negativas” e, a cada disco, renovando um dos movimentos mais originais da música popular brasileira, o Manguebeat. De “Rádio Samba” a “Fome de Tudo”, as propostas lançadas com o disco “Da Lama ao Caos” foram não só retomadas, como também aprofundadas. O ato de resistência do mangue ante o avanço dos centros urbanos e da tecnologia se tornava agora um ato de total interatividade; a estrutura das canções da Nação Zumbi, antes marcadamente dissonante, desenha agora um som “biônico / eletro-soulsônico”.

            Isso não significa que se perdeu a energia de resistência e de dissonância. Como eu disse acima, a “música quântica” da Nação Zumbi pós-CS seguiu com as propostas do movimento em profundidade. O regionalismo da percussão proveniente do Coco e do Maracatu, por exemplo, embora aparentemente atenuado diante da guitarra elétrica e da música eletrônica, soa agora como uma troça eletro-soul tropicalista.

            E, particularmente, tenho a Nação Zumbi, por esta e outras razões, como a banda de Rock mais original do Brasil – naquilo que ela tem de genuinamente antropofágico. O seu conjunto e sua integridade sobreviveram à morte de seu maior nome, Chico Science, tudo porque a banda assumiu o risco da mudança, atitude que faltou a bandas como Barão Vermelho e Titãs e falta a várias outras bandinhas dos VMB’s da vida.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 23h22
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Significações abissais

A grandeza do haikai consiste – acredito – na concentração de imagens conjugada à implosão sonora ou rítmica. E é até natural que seja assim, dado ser a língua japonesa, que lhe deu origem, caracterizada por uma sintaxe visual e analógica (ideogramática), constituída por sons sincopados. O certo é que, como potentes chips de microcomputadores ultramodernos, o haikai concentra em sua estrutura (em termos orgânicos) significações abissais – como um mergulho profundo dos sentidos.

Estas características saltam à evidência quando nos deparamos com haikais de Matsuo Basho – o mais conhecido dentre os praticantes dessa “modalidade” de poesia. A verdade, porém, é que a prática do haikai por este poeta estava ligada intrinsecamente à peregrinação, cujo objetivo maior era a contemplação da (e integração à) natureza, em qualquer de suas estações – seja no colorido da primavera ou no prateado das noites de outono, seja no azul fulgurante do verão ou na morbidez fria do inverno, era a natureza a musa iluminadora dessas pequenas implosões da linguagem.

Mas, enquanto tal, os haikais de Basho, por vezes carregados de humor, desenham imagens magníficas, que ganham vida como signo a partir da construção sincopada de paronomásias. Não se trata de meras referências visuais a um determinado estado de coisas; são as palavras transformadas elas mesmas em coisas. Obviamente que isto é um procedimento comum em toda grande poesia, mas no haikai assume uma condição de materialização do espírito de iluminação – ou “satori”.

“Trilha Estrita ao Confim” (Iluminuras, 1997), na tradução em parceria de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano, conquanto eu não conheça a língua japonesa nem a edição seja bilíngüe, apresenta muito bem em português esse aspecto da poesia de Matsuo Basho. São vários haikais que preservam a concisão das imagens e a sua projeção sincopada sobre os significantes (em seu aspecto sonoro).  Um bom exemplo é o haikai que Basho compôs após ter visto o templo Nikko, que para ele ilumina “as pessoas dos povoados como um raio de sol”. E louvando o monge Kukai por tê-lo construído, Basho escreveu: “maravilhoso / o brilho do sol / nas verdes frescas folhas”.

E como esse sol que maior viço dá às verdes frescas folhas, os haikais de Basho sempre iluminarão seus leitores contra a ignorância cartesiana do Ocidente.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 19h42
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Poesia

abjeto

 

como vísceras

de dragão

 

 

&

 

intestino

do asfalto

 

 

 

corpautofagia

quando o

 

sol

 

se acid

entre

 

abscessos

 

in

di

gesto



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 00h03
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Sobre fama e vaidade

            No início do ano, publicou-se em Portugal uma antologia de poetas brasileiros. Foi uma seleção de 18 poetas da novíssima geração, todos escolhidos a dedo pelo poeta Cláudio Daniel. Eu participei dessa antologia com cinco poemas, mas só fiz questão de anunciar a boa nova unicamente aos meus amigos, dentre eles o editor do Correio das Artes e jornalista, Linaldo Guedes – a quem eu devo, inclusive, este espaço.

            O motivo pelo qual não bradei pelos quatro cantos minha participação na antologia se deveu ao fato de adotar, como postura ética, a recusa, como naquele poema de Boris Pasternak, a quem Augusto de Campos deu viva voz em português em seu livro “Poesia da Recusa”: “Ser famoso não é bonito. / Não nos torna criativos. / São dispensáveis os arquivos. / Um manuscrito é só um escrito”.

            Obviamente que eu não renegaria eventual publicidade que sobre o caso viesse a se fazer. Acredito até ser natural que assim se faça, porque a poesia, como todo produto humano, está destinada ao consumo, ainda que em pequeníssima quantidade. Contudo, desconfio e nego qualquer atitude a respeito da poesia, e da arte em geral, que tenha como escopo maior, não só a comunicabilidade fácil, mas a popularidade.

            Certa vez, quando ainda estudante de Letras, visitei a casa de dois artistas, um escultor e o outro pintor. Este, vivendo humildemente, parecia cansado e pouco se importava com a tietagem que lhe fazíamos. Sua única preocupação era nos fazer entender sua arte. Aquele, por sua vez, de tão preocupado com a fama, só falava de coluna social, orgulhando-se por estar sempre presente em Gerardo, Abelardo etc.

            Terminei esse dia com a impressão de que a arte se perde quando se perde a pureza do artista. Germinei essa impressão e a ratifiquei, anos depois, a partir de algumas leituras e experiências acumuladas, como suporte ético ao meu pensamento estético. Por isso que admiro bastante (e não me canso de repetir) o que disse John Cage sobre o motivo de sua obra: “não para me expressar, mas para mudar a mim mesmo”.

            Fui publicado em uma antologia e obtive, aqui na Paraíba, a divulgação do livro por um único jornal – A União. Os demais não fizeram qualquer menção sobre o fato, seja por desinteresse de seus jornalistas, seja por falta de informação deles. De um modo ou de outro, se todos se calaram, tanto melhor, porque odiaria chamar tanta atenção, já que, como a poesia, a vida só é melhor quando o oculto terá sido o óbvio.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 09h47
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Nota sobre os "Contos Negreiros"

            Segundo Cortázar, o conto é comparável a uma fotografia. Dele se tira um instante único, onde concisão e profundidade compartilham espaços em comum. Pode-se até dizer que o conto explora uma situação limite, pois, sem extensão, constrói sentidos por intensidade, como em um engarrafamento em que as estórias vão se sucedendo, uma por uma, na explosão de um sinal, verde ou vermelho.

No caso do livro "Contos Negreiros" (2005, Ed. Record) de Marcelino Freire, composto que é por XVI cantos, a intensidade típica do conto ultrapassa os sinais, que aqui, diferentemente do vermelho e do verde, são em preto e branco. E é nesta intensiva dualidade que todas as narrativas encontram sua base, embora o maniqueísmo do discurso incomode o leitor politicamente incorreto – se é que vocês me entendem...

De toda forma, independentemente do discurso político do livro, a força dos contos de Marcelino Freire, encartando a dicotomia intensa do preto sobre o branco, reside no jogo entre a escrita e a oralidade, a narrativa burguesa (moderna) e os racontos de uma cultura iletrada (pré-moderna). Assim, as narrativas de "Contos Negreiros", fissurando os signos, fazem dançar, por meio da prosa, notas de Rap, Repente, Coco e Embolada, armando-se, como as canções de Mano Brown, com palavras ao dente.

Cada narrativa de Marcelino Freire, aliás, é como uma canção, equilibrando-se entre melodia e texto. Não é à toa que o livro começa com trecho de uma canção de Ary Barroso ("Brasil, do meu amor, Terra de Nosso sinhô.") e termina com outro trecho de Samba da Benção de Vinícius de Moraes ("E se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração."). Por sinal, estes versos do poetinha muito bem sintetizam a linguagem dos "Contos Negreiros" de Marcelino Freire, inclusive no que ela tem de elaborada sem perder a sensualidade.

E o leitor, passando de canto em canto (como disse, são XVI ao todo – assim mesmo, em algarismo romano), lendo e ouvindo as narrativas de "Contos Negreiros", vai se sufocando na explosão intensiva dos signos em deterioração social, entre o preconceito branco e a marginalidade negra, como em um engarrafamento em que as estórias vão se sucedendo, uma por uma, na explosão de um acidente...

Preto e Branco.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 11h00
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Samba de uma nota só

            Certo amigo meu, lendo minhas colunas, reclamou de certa monotonia da visão que tenho sobre arte, crítica e sobre poesia. Disse que eu batia um samba de uma nota só, e parecia que era leitor de um único repertório – isto é, de certa forma, alienado. Tentei justificar, é claro. Mas o cara foi irredutível: era preciso que eu abrisse um pouco mais minha cabeça (e olhos) e compreendesse outros argumentos para, discutindo-os, reforçar as minhas próprias idéias. Bingo!

            O problema, no entanto, não está aí. O brasileiro comum ainda tem uma visão romantizada de muita coisa. Sou advogado, e vejo que nesse meio se valoriza demais as frases de efeito, os retoricismos “acanêmicos” e toda sorte de preciosismos cujo único intuito é de falsear o vazio semântico do discurso... como sepulcros caiados, naquela boa e pertinente imagem do evangelho...

Com a arte em geral e, especificamente, com a poesia, o cenário não é diferente. Pinta-se como há 500 anos – leia-se a coluna de Amador Ribeiro Neto sobre o absurdo da Estação Ciência. Escreve-se, também, como há 100, 300 anos. E com a poesia é ainda pior, porque, sob o pavor da poesia romântica, ainda a mais lida entre os jovens (justamente na época de formação – deformação, no caso), acha-se que ela, a mais difícil das artes, a mais fácil, sujeita à (e irmã dileta da) inspiração. É só fazer um verso “bonitinho” (às vezes nem tanto) e plenamente assimilável para ser boa poesia...

O que é mais pernicioso, contudo, não é exatamente o despreparo do leitor, mas do crítico e do teórico da literatura. Digo isto porque passei quase quatro anos na faculdade de Letras da UFPB e, salvo por raríssimas exceções, empurraram-me goela adentro aquela polícia crítica que Jakobson denunciou no início do século 20. Em poesia vê-se tudo (psicologia, sociologia, história etc.), menos a poesia, e alguns chegam ao absurdo de querer fazer dela um exercício socrático; outros de panfleto...

Eu vou voltar ao assunto aqui, discutir reiteradas vezes. Mas, antes de dar cabo a esse texto, volto às considerações que aqui já fiz. O grande problema do ensino e da crítica de poesia e da literatura (talvez da arte em geral) é a incompetência crítica e criativa de quem deveria perceber que o objeto de que se valem é antes de tudo, como disse Haroldo de Campos, linguagem em alta voltagem.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 09h02
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Pouca coisa ou muito

           Ela recostada. Olhava e olhava, sem dizer. Vestia branco e jeans. Uma garça e seu pouso contra um poente cinza, cinzelado de carros e paredes subterrâneas. Minhas palavras se soltavam e nada do que eu falava era-lhe crível. Talvez ela tenha voltado ao seu vôo de anos atrás, de memórias (ao menos as boas). Mas ela olhava e, calada, pôs as mãos sobre os joelhos, tentando entender o que eu lhe contava. Em vão: sua boca tremia e somente os seus olhos, pequenas moedas de um celeste negro, iluminavam o que vento arrancava de minha boca. Nenhum beijo, por sinal. Somente palavras que lhe pareciam vazias. E eu não tive coragem de olhar aquele céu. Míope, continuei falando. Rouco, continuei estanque. Queria lhe dar um abraço, apertá-la ao peito: beijá-la. Mas entre nós dois um impasse e um tempo para ela incompreensíveis. Tirou uma das mãos que havia posto sobre os joelhos. Buscou um lenço e limpou o rosto. O pulso dela balançou o brilho fosco de um relógio branco como sua camisa, incerto como a minha voz. Calei-me um instante e voltei a falar uma ária quase choro. Rouco e Míope. E ela me olhava, olhava, sem dizer. Talvez ela não estivesse ali. Estava de certo em seu ninho de lembranças ou voando por aí em algum lugar do passado. Passando de uma imagem a outra, sem som, sem cor. Só formas de felicidade frágil. Parei de falar e tentei fechar os olhos para não chorar. Olhei para os lados e vi que ainda era um estacionamento. Vi que ela me olhava como um buraco negro expande sua destruição. Sua fome de sentido e de amor. Eu também tenho fome, era o que eu teria lhe dito ali na hora se a mutilação não me arrancasse o que eu construí por amor. Peguei a mão dela e beijei. Beijei outra vez até que ela, fazendo o mesmo, beijou a minha mão e me disse duas palavras que eu jamais vou esquecer... E ela me disse com graça, com uma inocência imprevista que me fez chorar sem diques. Inundei minha vida inteira. Inundei o carro e percebi, naquele mesmo instante, a decisão que eu tomaria. Fixei meus olhos nela. Quis beijá-la novamente. Abraçá-la. E vi que ela então já não me olhava ou sequer espiava. Tudo agora era sem palavras. E senti que o que eu tinha feito ali, num estacionamento, jogaria para sempre minha alma numa latrina...

            Preciso de um banho por dentro.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 20h17
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Por uma bofetada no gosto público

           A cidade de João Pessoa carece de eventos literários. Isto é uma constatação que se faz com certa obviedade. Mas a causa desse efeito indesejado, para ficar no nível cartesiano comum, atribui-se geralmente a não iniciativa dos letrados, escritores ou de poetas que deveriam, à vista de tal situação, sair de suas tocas e agitar o marasmo com manifestos, atitude e tudo aquilo que se espera de um artista, digamos... romantizado – no sentido técnico da palavra, só para não causar confusão aos cartesianos.

           Particularmente não acredito que esteja aí o problema. Valiosíssima a intenção de alguns em promover encontros, colóquios e todo o tipo de agitação. Reclamei, por exemplo, do silêncio que na Paraíba (em especial, na UFPB) se fez quando da comemoração do Bloomsday. Fiquei até constrangido, na oportunidade. Só que ressalvo, aqui, a teatralidade com que certos eventos do tipo são tomados. Alguns, pela incompetência estética, são apenas manifestações de choque, coqueluche adolescente. Quem os promove, geralmente aquele tipo “underground” – porra-louca –, faz do cenário um espetáculo estapafúrdio, cujo único mérito é não resultar em nada.

           Tô aqui procês, chupins!

           É por isso que prefiro o silêncio, embora este silêncio seja diferente daquele do qual reclamei em relação ao Bloomsday. A poesia não precisa de auditórios, de capas de jornal ou de matérias televisivas. A poesia não precisa da fama, do choque gratuito; de atitudes rebeldes adolescentes, pseudo-beatinik. A poesia não é moeda de troca; não é motivo de coluna social; não é nada de nada além dela mesma, naquilo que ela tem de semiótico e de reinvenção do sensível através da linguagem.

           Faço das palavras de Paul Valéry as minhas, quando ele diz, criticando o realismo francês, que o real na arte é a própria arte. Sincrônico, Amador Ribeiro Neto esclarece o dito: “a poesia que dialoga com a pós-modernidade é aquela que assume a falência das utopias, centrando-se na construção intrínseca das linguagens artísticas. Nestes tempos de fim das narrativas históricas é impossível (ou ingênuo) pensar esperanças”. E eu não penso.

           Mas que se promovam eventos, festas, movimentos, desde que o barulho a ser feito não perca de vista a poesia com P maiúsculo, pois se quiserem encaldeirar cultural e artisticamente a cidade de João Pessoa, que façam de modo salutar: sem forma revolucionária não há arte revolucionária, segundo a “lavagem cerebral” maiakovskiana: uma bofetada no gosto público.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 10h52
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Contra a dialética da maledicência

            Volta e meia leio em um dos periódicos da capital (que ainda tem um caderno de cultura) textos de alguns jornalistas, em exercício de substituição de crítico literário, que apregoam ter a vanguarda se esgotado. Que seria impossível agir de modo experimental em matéria de poesia, sob o risco (que para eles sempre acontece fatalmente) de sucumbir ao mero trocadilho, ao clichê performático da chamada poesia de invenção. Muitos, aliás, acreditam que ela nem exista.

            Houve um tempo que eu quase me convenci disso, mas depois que eu li uma entrevista de Augusto de Campos sobre a existência (resistência) da (idéia de) vanguarda em dias de hoje (ou hodiernamente, como alguns críticos gostariam de usar), afastei-me daquela dialética da maledicência e renovei minha curiosidade pelo rigor e pela invenção, essenciais à arte de qualidade.

            O que me chamou a atenção na entrevista de Augusto (concedida à revista eletrônica Mnemozine de n.º. 4 – para não esquecer de citar a fonte) foi este trecho aqui, onde o poeta pós-concreto pontua de estrelas o oco escuro do céu: “o que se chamou e se continua a chamar de vanguarda sempre existirá, porque o conceito de vanguarda está ligado a uma ideologia de liberdade e de inconformismo, indispensável para as artes, e a uma conduta artística que o próprio (John) Cage definiu, com a nota radical de seu anti-individualismo, quando afirmou compor não para expressar-se, mas para mudar a si próprio”. Um soco seco no estômago!

            A crítica tem uma função de esclarecer a obra criticada e não velar suas potencialidades em razão de preconceito e de ignorância. Giacinto Scelsi, compositor erudito italiano, disse certa vez que “não se deve odiar aquilo que não se compreende”. É uma lição e tanto a tais e tais jornalistas (críticos), porque na maioria das vezes – na verdade, quase sempre – seus julgamentos e comentários sobre vanguarda e poesia de invenção são contaminados pela incompetência crítica e criativa...

            Mas o leitor paraibano, que tem curiosidade (como sempre aconselhou Ezra Pound), não precisa se aborrecer ou se desestimular quando ler essas “matérias críticas”. Embora estejamos diante da falência das utopias, na pós-modernidade, a invenção (ainda que de si mesmo) é possível, porque “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” – lição básica (de Lavoisier) do ensino fundamental...



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 18h39
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Anguish and anger

Embora o “Bloomsday” tenha passado em branco por aqui em João Pessoa (se noticiado, o foi apenas por uma notinha de obituário), no resto do Brasil foi comemorado com vasta agenda. Em São Paulo, por exemplo, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura muita coisa aconteceu, desde palestras a leituras de trechos do romance “Ulysses” no original (!).

Soube também que em Natal nossos vizinhos festejaram o dia 16 (que é o dia-narrativo de “Ulysses”) com a presença do poeta Décio Pignatari, já octogenário. Foi uma decepção por dois motivos: o primeiro, porque não pude ir àquela cidade por razões pessoais e profissionais; o segundo, porque quem organizou a festança foi a UFRN, que no ano de 2005 trouxe o poeta Augusto de Campos, quando este então lançava o seu livro de poemas “Não” (Ed. Perspectiva).

Comparei de imediato a UFRN com a nossa UFPB. Daí a decepção.

Fiz no campus de João Pessoa o curso de Letras, que não cheguei a terminar. Tive bons e excelentes professores, tanto em Literatura quanto em Língua e Lingüística. Mas era raro presenciar eventos literários como o “Bloomsday”, que sempre era esquecido. A única vez que participei de evento parecido foi logo no início do curso, em 2002. Era o centenário de Carlos Drummond de Andrade.

Depois, jamais.

Posso estar julgando baseado em tendências ou gosto literários. Mas se não fosse, por exemplo, por Amador Ribeiro Neto, a Poesia Concreta jamais seria ensinada (pelos menos sem os preconceitos habituais) no curso de Letras. E eu adoro a Poesia Concreta. Foi por ela, inclusive, que conheci a obra de James Joyce, principalmente o “Finnegans Wake”, a partir dos trechos escolhidos e traduzidos pelos irmãos Campos.

Joyce é um escritor primordial. Quando li pela primeira vez os contos de “Dublinenses”, surpreendi-me com a concisão e economia narrativas em depurado realismo. Foi-me notável aquele mérito que Ezra Pound lhe incutiu: “ele evita cuidadosamente dizer aquilo que o leitor não quer saber”.

Enfim, fiquei transtornado. Ou como diria o personagem do conto “Araby”, em trocadilho intraduzível: “... and my eyes burned with anguish and anger”.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 13h16
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Disforia da cristalização

Luiz Tatit aponta como uma das características que compõe o perfil de cancionista de Caetano Veloso a “disforia da cristalização”. Sem aprofundar esse conceito, no entanto, basta dizer aqui que ele significa o distanciamento que Caetano toma quando sua obra começa a engessar em apenas uma dicção.

A acepção da “disforia” utilizada por Tatit é perfeitamente adequada para a aferição da poesia de Sérgio de Castro Pinto. Mas ao contrário. Explico. A obra de Sérgio tende a uma cristalização em dois sentidos. O primeiro, à clareza de cristal e à lucidez do gesto poético. O segundo, à repetição massificada de um mesmo procedimento de composição e à republicação inesgotável da obra até então publicada.

É o segundo aspecto que melhor calha ao conceito de “disforia da cristalização”.

Conheci a poesia de Sérgio de Castro Pinto a partir de “O Cerco da Memória”. Editado pela UFPB, este livro já compilava os anteriores, como “Ilha na Ostra” e “Domicílio em trânsito”. Em 2007, ao completar 40 anos de poesia, Sérgio voltou a reunir sua obra no livro “O Cristal dos Verões”, que foi editado e publicado pela Escrituras. Nele, o leitor pode encontrar poemas de “Gestos Lúcidos” a “Zôo Imaginário”, sendo este último publicado em 2006.

Mas, além dessa atitude de re-compilar ad infinitum a própria poesia, Sérgio de Castro Pinto, salvo algumas exceções (grande parte de “Gestos Lúcidos”, que é altamente cabralino), repete ao esgotamento o seu procedimento poético. Principalmente considerando que, de “O Cerco da Memória” até o “Zôo Imaginário”, fica clara a petrificação (ou cristalização) de sua dicção (essencialmente metafórica).

Isso necessariamente não é ruim. Sérgio atinge, com regularidade, altos picos de qualidade. O problema (e isso aconteceu comigo enquanto leitor) é que sua leitura vai cansando. Chega a um ponto em que ela perde toda a surpresa, como que se se automatizasse, ou, numa metáfora de João Cabral, como se as pedras de quebrar dente adocicassem a língua...

Assim, diferentemente do que acontece com Caetano Veloso, a “disforia da cristalização” em Sérgio de Castro Pinto atinge o leitor, que, surpreso numa primeira leitura, começa a pegar no sono quando adianta o passo...

Penei. Mas é preciso arriscar, meu caro leitor. E Poesia é risco.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 16h24
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