Por uma bofetada no gosto público
A cidade de João Pessoa carece de eventos literários. Isto é uma constatação que se faz com certa obviedade. Mas a causa desse efeito indesejado, para ficar no nível cartesiano comum, atribui-se geralmente a não iniciativa dos letrados, escritores ou de poetas que deveriam, à vista de tal situação, sair de suas tocas e agitar o marasmo com manifestos, atitude e tudo aquilo que se espera de um artista, digamos... romantizado – no sentido técnico da palavra, só para não causar confusão aos cartesianos.
Particularmente não acredito que esteja aí o problema. Valiosíssima a intenção de alguns em promover encontros, colóquios e todo o tipo de agitação. Reclamei, por exemplo, do silêncio que na Paraíba (em especial, na UFPB) se fez quando da comemoração do Bloomsday. Fiquei até constrangido, na oportunidade. Só que ressalvo, aqui, a teatralidade com que certos eventos do tipo são tomados. Alguns, pela incompetência estética, são apenas manifestações de choque, coqueluche adolescente. Quem os promove, geralmente aquele tipo “underground” – porra-louca –, faz do cenário um espetáculo estapafúrdio, cujo único mérito é não resultar em nada.
Tô aqui procês, chupins!
É por isso que prefiro o silêncio, embora este silêncio seja diferente daquele do qual reclamei em relação ao Bloomsday. A poesia não precisa de auditórios, de capas de jornal ou de matérias televisivas. A poesia não precisa da fama, do choque gratuito; de atitudes rebeldes adolescentes, pseudo-beatinik. A poesia não é moeda de troca; não é motivo de coluna social; não é nada de nada além dela mesma, naquilo que ela tem de semiótico e de reinvenção do sensível através da linguagem.
Faço das palavras de Paul Valéry as minhas, quando ele diz, criticando o realismo francês, que o real na arte é a própria arte. Sincrônico, Amador Ribeiro Neto esclarece o dito: “a poesia que dialoga com a pós-modernidade é aquela que assume a falência das utopias, centrando-se na construção intrínseca das linguagens artísticas. Nestes tempos de fim das narrativas históricas é impossível (ou ingênuo) pensar esperanças”. E eu não penso.
Mas que se promovam eventos, festas, movimentos, desde que o barulho a ser feito não perca de vista a poesia com P maiúsculo, pois se quiserem encaldeirar cultural e artisticamente a cidade de João Pessoa, que façam de modo salutar: sem forma revolucionária não há arte revolucionária, segundo a “lavagem cerebral” maiakovskiana: uma bofetada no gosto público.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 10h52
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Contra a dialética da maledicência
Volta e meia leio em um dos periódicos da capital (que ainda tem um caderno de cultura) textos de alguns jornalistas, em exercício de substituição de crítico literário, que apregoam ter a vanguarda se esgotado. Que seria impossível agir de modo experimental em matéria de poesia, sob o risco (que para eles sempre acontece fatalmente) de sucumbir ao mero trocadilho, ao clichê performático da chamada poesia de invenção. Muitos, aliás, acreditam que ela nem exista.
Houve um tempo que eu quase me convenci disso, mas depois que eu li uma entrevista de Augusto de Campos sobre a existência (resistência) da (idéia de) vanguarda em dias de hoje (ou hodiernamente, como alguns críticos gostariam de usar), afastei-me daquela dialética da maledicência e renovei minha curiosidade pelo rigor e pela invenção, essenciais à arte de qualidade.
O que me chamou a atenção na entrevista de Augusto (concedida à revista eletrônica Mnemozine de n.º. 4 – para não esquecer de citar a fonte) foi este trecho aqui, onde o poeta pós-concreto pontua de estrelas o oco escuro do céu: “o que se chamou e se continua a chamar de vanguarda sempre existirá, porque o conceito de vanguarda está ligado a uma ideologia de liberdade e de inconformismo, indispensável para as artes, e a uma conduta artística que o próprio (John) Cage definiu, com a nota radical de seu anti-individualismo, quando afirmou compor não para expressar-se, mas para mudar a si próprio”. Um soco seco no estômago!
A crítica tem uma função de esclarecer a obra criticada e não velar suas potencialidades em razão de preconceito e de ignorância. Giacinto Scelsi, compositor erudito italiano, disse certa vez que “não se deve odiar aquilo que não se compreende”. É uma lição e tanto a tais e tais jornalistas (críticos), porque na maioria das vezes – na verdade, quase sempre – seus julgamentos e comentários sobre vanguarda e poesia de invenção são contaminados pela incompetência crítica e criativa...
Mas o leitor paraibano, que tem curiosidade (como sempre aconselhou Ezra Pound), não precisa se aborrecer ou se desestimular quando ler essas “matérias críticas”. Embora estejamos diante da falência das utopias, na pós-modernidade, a invenção (ainda que de si mesmo) é possível, porque “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” – lição básica (de Lavoisier) do ensino fundamental...
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 18h39
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Anguish and anger
Embora o “Bloomsday” tenha passado em branco por aqui em João Pessoa (se noticiado, o foi apenas por uma notinha de obituário), no resto do Brasil foi comemorado com vasta agenda. Em São Paulo, por exemplo, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura muita coisa aconteceu, desde palestras a leituras de trechos do romance “Ulysses” no original (!).
Soube também que em Natal nossos vizinhos festejaram o dia 16 (que é o dia-narrativo de “Ulysses”) com a presença do poeta Décio Pignatari, já octogenário. Foi uma decepção por dois motivos: o primeiro, porque não pude ir àquela cidade por razões pessoais e profissionais; o segundo, porque quem organizou a festança foi a UFRN, que no ano de 2005 trouxe o poeta Augusto de Campos, quando este então lançava o seu livro de poemas “Não” (Ed. Perspectiva).
Comparei de imediato a UFRN com a nossa UFPB. Daí a decepção.
Fiz no campus de João Pessoa o curso de Letras, que não cheguei a terminar. Tive bons e excelentes professores, tanto em Literatura quanto em Língua e Lingüística. Mas era raro presenciar eventos literários como o “Bloomsday”, que sempre era esquecido. A única vez que participei de evento parecido foi logo no início do curso, em 2002. Era o centenário de Carlos Drummond de Andrade.
Depois, jamais.
Posso estar julgando baseado em tendências ou gosto literários. Mas se não fosse, por exemplo, por Amador Ribeiro Neto, a Poesia Concreta jamais seria ensinada (pelos menos sem os preconceitos habituais) no curso de Letras. E eu adoro a Poesia Concreta. Foi por ela, inclusive, que conheci a obra de James Joyce, principalmente o “Finnegans Wake”, a partir dos trechos escolhidos e traduzidos pelos irmãos Campos.
Joyce é um escritor primordial. Quando li pela primeira vez os contos de “Dublinenses”, surpreendi-me com a concisão e economia narrativas em depurado realismo. Foi-me notável aquele mérito que Ezra Pound lhe incutiu: “ele evita cuidadosamente dizer aquilo que o leitor não quer saber”.
Enfim, fiquei transtornado. Ou como diria o personagem do conto “Araby”, em trocadilho intraduzível: “... and my eyes burned with anguish and anger”.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 13h16
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Disforia da cristalização
Luiz Tatit aponta como uma das características que compõe o perfil de cancionista de Caetano Veloso a “disforia da cristalização”. Sem aprofundar esse conceito, no entanto, basta dizer aqui que ele significa o distanciamento que Caetano toma quando sua obra começa a engessar em apenas uma dicção.
A acepção da “disforia” utilizada por Tatit é perfeitamente adequada para a aferição da poesia de Sérgio de Castro Pinto. Mas ao contrário. Explico. A obra de Sérgio tende a uma cristalização em dois sentidos. O primeiro, à clareza de cristal e à lucidez do gesto poético. O segundo, à repetição massificada de um mesmo procedimento de composição e à republicação inesgotável da obra até então publicada.
É o segundo aspecto que melhor calha ao conceito de “disforia da cristalização”.
Conheci a poesia de Sérgio de Castro Pinto a partir de “O Cerco da Memória”. Editado pela UFPB, este livro já compilava os anteriores, como “Ilha na Ostra” e “Domicílio em trânsito”. Em 2007, ao completar 40 anos de poesia, Sérgio voltou a reunir sua obra no livro “O Cristal dos Verões”, que foi editado e publicado pela Escrituras. Nele, o leitor pode encontrar poemas de “Gestos Lúcidos” a “Zôo Imaginário”, sendo este último publicado em 2006.
Mas, além dessa atitude de re-compilar ad infinitum a própria poesia, Sérgio de Castro Pinto, salvo algumas exceções (grande parte de “Gestos Lúcidos”, que é altamente cabralino), repete ao esgotamento o seu procedimento poético. Principalmente considerando que, de “O Cerco da Memória” até o “Zôo Imaginário”, fica clara a petrificação (ou cristalização) de sua dicção (essencialmente metafórica).
Isso necessariamente não é ruim. Sérgio atinge, com regularidade, altos picos de qualidade. O problema (e isso aconteceu comigo enquanto leitor) é que sua leitura vai cansando. Chega a um ponto em que ela perde toda a surpresa, como que se se automatizasse, ou, numa metáfora de João Cabral, como se as pedras de quebrar dente adocicassem a língua...
Assim, diferentemente do que acontece com Caetano Veloso, a “disforia da cristalização” em Sérgio de Castro Pinto atinge o leitor, que, surpreso numa primeira leitura, começa a pegar no sono quando adianta o passo...
Penei. Mas é preciso arriscar, meu caro leitor. E Poesia é risco.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 16h24
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Poemas a Vapor
A estréia literária é sempre difícil, embora seja muito fácil publicar um livro hoje em dia. É que, quando se leva a sério o ofício, tudo fica espezinhado. E quando digo levar a sério, quero sugerir aquela solução já conhecida (e, por muitos, criticada) do ostinato rigore – o obstinado rigor. A consciência crítica, para aqueles que seguem esta ética, é sempre um chiclete na sola do sapato.
Mas como havia dito, é muito fácil publicar um livro nos dias de hoje, principalmente quando o Poder Público patrocina, por meio de concursos, a editoração etc. dos livros concorrentes. Às vezes o resultado é uma maravilha, um tiro de flecha no peito do alvo, mas, às vezes, sai pela culatra, mesmo quando revela pequenas potencialidades – promessas de arranjo melhor.
Acredito que a segunda hipótese tenha acontecido no último concurso promovido pela FUNJOPE, no ano de 2006 (com a publicação em 2007). Na oportunidade, foram eleitos vencedores Renálide Carvalho e IkaRo MaxX, este com Um cristo Cuspido no Espelho do Século e aquela com Poemas a Vapor. Mas, pelo curto espaço e pela maior atenção dada, vou me resumir a Renálide.
“Poemas a Vapor” é curto e indeciso. A autora demonstra que não teve paciência para trabalhar seus poemas, apesar de alguns deles conterem apenas bons versos, como Modernodes, em que se encontra a sinestésica imagem “O cheiro da borra rodeada de moscas” e o sonoro verso “Arre, escarrarei um canto aos carros e aos movimentos vadios”, cuja aliteração esparge o arranco enraivecido do eu lírico.
Outro momento interessante do livro é o poema Complexo Vicioso, sobre o que Renálide trabalha próxima à sintaxe de Gertrude Stein. O verso reiterado e circular de “a rose is a rose is a rose” é fundamento para “... sua ame sua mummy sua ame sua mãe...”, a despeito da obviedade entre a imagem formada do seio e o trocadilho entre “mummy” (correlato de “mamãe” em inglês) e “mame” (forma verbal de mamar).
Mas o livro, salvo ainda raríssimas exceções (como o poema Pente), pára por aí. Quando terminei de ler Poemas a Vapor tive a sensação de que ele saiu às pressas. Parece ter faltado à Renálide aquele ostinato rigore de que falei no início, pois como ela poderia fazer, por exemplo, o bobo trocadilho: “... LO BO LO BO LO...”, só para explicar a infantilização do medo?
Não sei. Sei, apenas, que a poesia dela evaporou.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 12h41
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Poesia
é como se
engrenagem
a carne gangrena
de cães aço
a apodrecer
rodovias en
cru
zilhadas escamas
o dragão
a sem sangue
se alimentasse de mim.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 13h05
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Cabeça Dinossauro
Na história do rock, muitas bandas já conceberam álbuns conceituais. Associando o prazer da fruição auditiva à reflexão conceitual, esses álbuns não têm interesse apenas na simples veiculação da mensagem musical, mas investem na transmissão inequívoca de uma experiência estética. Um dos exemplos mais radicais seja, talvez, o de "Dark Side of the Moon", do britânico Pink Floyd, cuja audição, por razões hostis, só vim ter há poucos dias, quando encontrei o disco por um preço mísero.
No Brasil, pelo que tenho conhecimento, pode-se dizer que a obra coletiva "Tropicália" seja conceitual (embora Caetano negue essa qualidade). Com mais segurança, "Araçá Azul" poderia ser também classificado como tal, inclusive como álbum de rock, se assim se compreender pela explosão do som. Mas, no âmbito estreito do rock brasileiro, o que me chamou muito a atenção, dentre os conceituais, foi "Cabeça Dinossauro" dos Titãs, lançado no ano de 1986, quando o Brasil então saía de uma ditadura.
Da primeira à última faixa, o disco ensurdece como um grito de vários timbres, flutuando no espaço curvo das cidades. "Cabeça Dinossauro", faixa título, trabalha com uma percussão brutalista, imprimindo um ritmo que repercute nos versos consonantais e reiterativos da sintaxe de pedra do texto: "Cabeça Dinossauro/ Cabeça Dinossauro/ cabeça cabeça/ Cabeça Dinossauro// Pança de mamute/ Pança de mamute/ pança pança/ Pança de Mamute// Espírito de porco/ Espírito de porco/ espírito espírito/ Espírito de porco".
O conceito de "Cabeça Dinossauro" está atrelado ao esfacelamento e embrutecimento do homem contemporâneo, cego de tanto enxergar e surdo de tanto escutar. Esse desespero incita o homem a gritar ("AA UU"), a espancar ("Porrada"), e o leva a se perder na incerteza de si mesmo ("o que é o que não pode ser que não é..." de "O Que"). É sintomática a canção "Homem Primata", em cujo tom pop, destoando do peso geral (o que soa irônico), o eu lírico brinca e canta: "Eu me perdi na selva de pedras/ Eu me perdi, eu me perdi".
Mas a canção que melhor sintetiza a concepção de "Cabeça Dinossauro" é a "Face do Destruidor". Ali, tem-se um hardcore de 0,35´, cantado com uma ultraviolence que lembra a loucura futurista de Anthony Burgess e Stanley Kubric. E como que se referindo à apocalipse urbana, o (des)equilíbrio entre texto e melodia, na (des)construção da música pela explosão do som (ouçam Edgar Varèse), prenuncia: "O destruidor não pode mais destruir/ Porque o construtor não constrói"...
Sinal dos tempos: a cabeça ouvindo as pedras.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 10h43
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Poesia
o corpo à forca
do asfalto
catafalc’
o corp’
abort’o
(o) sol
bolor
bolor
abrolho so
bre a pele s
ob agulhas
de abelha
prenhe
o dragão
engole-me
a cidade:
.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 23h08
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Barulho
O rock brasileiro viveu seu auge nos anos 80. Mas antes mesmo do estouro do “brock”, já existia uma centelha dessa explosão juvenil nas levadas da jovem guarda, dos Mutantes, dos Secos e Molhados e em alguns momentos de Caetano Veloso, que já transava uma postura rock ao desfilar seu som nos festivais acompanhado por guitarras distorcidas. Os anos 60 e 70, de certa forma, prepararam o que seria a consolidação do estilo nas décadas seguintes, principalmente na “década perdida”.
Uma das bandas mais instigantes desse período pós-ditadura foi a Barão Vermelho. Mescla de blues e beat, Rimbaud e Kerouac, Cartola e Ginsberg, as canções do Barão encorparam de longe o rock nacional. Basta ouvir o primeiro álbum lançado pela rapaziada, que, desde a primeira faixa, Posando de star, tem-se a presença inconfundível do estilo. Outras canções como Down em mim, Bilhetinho azul e a fenomenal Todo amor que houver nessa vida são definitivas ao dar sabor de porra-louquice e de inconseqüência.
A grande força, talvez, do Barão Vermelho tenha sido a atitude exagerada e a poesia sem pudor de Cazuza. A já citada canção Bilhetinho Azul, por exemplo, tem versos desconcertantes. Nela, o gesto oral rouckenho de Cazuza, entre bêbedo e amargurado, grita e sussurra: “como pode alguém ser tão demente/ porra louca/ inconseqüente e ainda amar... ver o amor/ como um abraço curto/ pra não sufocar”. Caetano disse ter chorado quando a ouviu no rádio, preso no trânsito sufocante de São Paulo.
E ouvindo assim de tão longe, desde o primeiro álbum ao último do período Cazuza (Barão Vermelho e Maior Abandonado), fica aquela impressão de que o rock, por estes trópicos, só descarregou durante esta época. E a lembrança de bandas como os Titãs (que hoje são titias), o Ira!, Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Blitz, a presença de Lobão (que ainda está por aí) etc. etc. apenas confirmam esta desolação. Salvo raras exceções, hoje o rock brasileiro parece muito emo e empacotado...
Vou ver se saio por aí colando cartazes e pichando aos berros nas paredes das escolas e universidades públicas: precisa-se urgentemente de um veneno contra a monotonia; precisa-se urgentemente injetar no grito a rouquidão e o desabafo; precisa-se impedir que certos admiráveis chips novos e franjinhas rebeldes saiam da estante. O rock, meus amigos, é para ouvir com atitude e não com coqueluche.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 17h54
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Poesia
asfixia
p(r)esa
ao peito
a
(l)
í(ngu)
gne(a)
a
do dra-
gão(!)
como
(se)
insígnea
o
sol
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 19h37
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Crítica
O livro de estréia do poeta Paulo de Toledo, "51 Mendicantos" (2007, ed. Éblis), abre-se para o leitor numa sucessão de flashs. É como se fosse uma série fotográfica que retratasse o cotidiano marginal das ruas, tendo como modelo a figura do mendigo, em toda a sua indignidade.
São momentos de humor em que o leitor, ora se compadece, ora sorri, alentado muita vez pelo próprio jogo que são os poemas, escritos como que com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” machadianas.
globalizado
a tv o mendigo olha
na tela o reflexo dele
desculpem a nossa falha.
O marcante, porém, é a relação que se estabelece entre o luxo e o lixo da sociedade – a condição marginal do mendigo e os objetos da alta civilização que lhe excluem. Trata-se daquela situação que Augusto de Campos bem (re) produziu em seu poema Luxo, de 1965: todo luxo é constituído por “lixos”.
Essa referência ao poeta concreto, no entanto, não é gratuita. A poesia de Paulo de Toledo demonstra ter deglutido e devorado, até a última sobra, a obra de Augusto de Campos, inclusive no que ela tem de negação por postura ética – sustentada a todo custo, nestes últimos 50 anos, pelo autor de "VIVA-VAIA".
Tal postura, aliás, faz o leitor intuir que aquele mendigo, achincalhado nos versos de "51 Mendicantos", nada mais é do que a figura metafórica do próprio poeta – ser sujeito à margem da margem como um “bicho inodoro em seu laboratório sem sol ou salário” (Augusto de Campos).
Esgarçado pela sociedade do mass media, onde todo produto deve ser um produto cultural de utilidade imediata, o poeta instala-se nas sarjetas para dar “com o pé no lixo da supercivilidade” (Eça de Queirós), e transformar a matéria-lixo de sua era em obra-prima atemporal:
cachaça n.° 5
pra marilyn bastava do chanel um pingo
pro mendigo pro sono a pinga
no lixo vazios o frasco e o casco
É como certa vez escreveu Carlos Ávila, citando Octavio Paz: “Instalado em seu subterrâneo (...), o poeta preserva ‘a arte que mais sofreu com o mercantilismo atual’, mantendo-a viva como um instrumento poderoso de aferição das contradições e ambigüidades do processo cultural a que assiste”.
O poeta, como o mendigo, encontra-se solitário e marginalizado diante do trânsito opressivo da pós-modernidade, tentando manter-se vivo e fazer sobreviver, a custo de sua própria utilidade, a vida (arte) que pratica. E acaba por se pôr em xeque:
perdeu a cabeça
to drink why not to drink
that’s the question
declama o cadavérico mendigo
A poesia de Paulo de Toledo, portanto, além de um close-up marginal sobre a vida e o que ela tem de mais galhofeiro e ignóbil, consegue projetar, sem pudicícia ou inocência, o problema da situação da arte poética em pleno século XXI. Seus "51 mendicantos" operam, não apenas o grito dos menos favorecidos, mas uma reflexão robusta sobre o lixo e o luxo da vida e da poesia.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 00h55
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Poesia
draga-me
o dragão
às grades
dos dias
agrilhoa-me
os braços
de rugas
e algodão
nenhum
grito
nenhum
sismo
só
a so-
ga gór-
dia à glo-
te.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 14h02
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Primeira parte
Bere’shith – cena da origem: a transcriação da poesia da Criação
Daniel Sampaio de Azevedo*
I
A controvérsia sobre a tradução de poesia parece ter se afastado da pauta crítica brasileira de uns anos para cá. Em verdade, não temos, em termos gerais, uma discussão habitual sobre a poesia e suas possibilidades de tradução. Mesmo assim, há uma produção considerável de traduções no Brasil, inclusive quanto à divulgação de poetas latino-americanos contemporâneos, que vem sendo realizada por Cláudio Daniel, Glauco Mattoso e Josely Vianna Baptista. Cite-se o Caribe Transplatino, com traduções desta última, e Jardim de Camaleões, dos dois primeiros. Contudo, os nomes que mais se sobressaem, e que formam uma espécie de cânone marginal da tradução de poesia no Brasil, são os nomes de Augusto e Haroldo de Campos. Criadores, ao lado de Décio Pignatari, do movimento de Poesia Concreta, estes poetas desde a década de 50 se empenharam no exercício da tradução criativa de poesia, seguindo a lição de Ezra Pound, para divulgar o Paideuma da vanguarda concretista. Poetas, que à época eram ignorados pelo público, como Stéphane Mallarmé, e.e. cummings (grafado assim em minúsculas), o próprio Ezra Pound e o James Joyce de Finnegans Wake foram os primeiros a serem objetos desse projeto concretista de tradução criativa de poesia. Mas quem melhor sintetizou a urgência de traduzir poesia criativamente foi o lingüista Roman Jakobson, que afirmou:
Em poesia, as equações verbais são elevadas à categoria de princípio construtivo do texto. (...). O trocadilho, ou para empregar um termo mais erudito e talvez mais preciso, a paronomásia, reina na arte poética; quer esta denominação seja absoluta ou limitada, a poesia, por definição, é intraduzível. Só é possível a transposição criativa (...).
Transposição criativa seria a conformação de aspectos estéticos de uma língua em outra. Ao invés de o tradutor apenas transpor o conteúdo do texto traduzido, passaria a inscrever também em sua própria língua as marcas estéticas – poéticas – da obra em tradução. É um processo que ao tradutor exige qualidades de um autêntico criador; como se trata de poesia, a sua tradução requer um esforço de poeta, uma recriação “formal” para que, no ato de transposição, seja mantida a atmosfera de arte verbal que caracteriza a “differentia specifica” do texto poético. Por esta razão, provavelmente, Haroldo de Campos denominou a tradução criativa como “transcriação”, enquanto Augusto de Campos a nomeou como “tradução-arte”. Este, aliás, publicou, ao final da década de 1980, um livro precioso no qual trabalha a criação como crítica e a crítica por meio da tradução: educação dos cincos sentidos que Ezra Pound sugeriu ao ver na tradução o meio mais eficiente e honesto de crítica literária. Para os curiosos, o título da preciosidade é, por coincidência, Anticrítico (ou, como alguns burocratas da poesia preferem, “Anticristo”) e há nele uma passagem belíssima na qual o poetamenos cordialmente defende:
O que abomino são os críticos que praticam aquilo que já chamei de “dialética da maledicência”. Os que não iluminam nem se deixam iluminar. Os desconfiados e os ressentidos com a sua própria incompetência cósmica para entender ou criar qualquer coisa de novo. Aqueles a que Pound se referia como a “vermina pestilente”: os que desviam a atenção dos melhores para os de 2ª categoria ou para os seus próprios escritos críticos.
Contra esses eu sou. E é a eles que este meu livro – crítica de amor e de amador, crítica via tradução criativa – dirige a seta do seu “anti”. Mas a minha meta é outra. A minha meta é a poesia, que – de Dante a Cage – é cor, é som, é fracasso de sucesso, e não passa de uma conferência sobre o nada.
Seria o caso, então, de acreditar que se trataria da própria incapacidade de parte de nossa crítica em compreender a tradução de poesia como um fenômeno estético autônomo, cuja essencialidade está igualmente na novidade que permanece novidade – desculpando, desde logo, o necessário chavão? De toda forma, ainda que não se tenha acesso fácil a certas línguas, como o russo, ou o alemão, ou o japonês, ao crítico que tem sensibilidade para reconhecer a diferença específica da poesia, a simples leitura da tradução, ou transcriação, é bastante para reconhecer uma qualidade poética – estética – no texto traduzido, suficiente para bem qualificá-lo. Posso ler as transposições criativas de Haroldo de Campos para a Ilíada de Homero, mesmo sem dominar o grego, e ver ali um épico em português de excelsa qualidade. Augusto de Campos, por exemplo, quando se confrontou com as traduções de Antônio Risério para os cantos Orikis, argumentou que, mesmo não conhecendo a língua de origem, o iorubá, pôde apreciar a grande qualidade dos poemas da tradução: “Não conhecendo a língua nem sendo um especialista da cultura iorubá (...) guio-me, neste caso, em primeiro lugar pelos resultados, que apontam para a construção de apreciáveis poemas em português”. Sendo assim, é neste passo que li as traduções, diretamente do hebraico, de Haroldo de Campos para o Gênese – ou na tradição judaica, Bere’shith – e passo a tecer alguns comentários, eivados, desculpem-me, de muita fé na poesia.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 22h22
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Poesia
Madrugada
pó sobre mar-de-águas sob arcada
pós biombo as estrelas serpentes e cambraias
o chão e o campo
tudo escuro depois da praia
até o satélite-luz pálpebras sobre o olho
onde solionda a pouca lúgrima
o pó cobre
tua presença derramando
como óleo
quente
já à hora de ir embora
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 21h43
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Texto de Valberto Alves de Azevedo Filho
O que me chamou mais a atenção, dentre as diversas questões exibidas no filme Tropa de Elite, foi a da ação de combate, nas favelas cariocas, do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro, mais conhecido como Bope, ou, no jargão das ruas, faca-na-caveira.
Embora a discussão acerca do papel de parcela da sociedade civil no financiamento do tráfico seja interessante e fundamental, a violência – diga-se de passagem, “operações” – com que o Bope atua no combate ao tráfico ilícito de entorpecentes (uma das “hipérboles” do filme) não se deixa passar sem represas, isto é, sem surpresas.
Maior surpresa, na verdade, foi-me a recepção calorosa de grande parte do público pirata ao modus operandi daquele batalhão especial – digo isso, inclusive, em referência à totalidade de meus amigos. Até mesmo a grande imprensa traçou abertamente um perfil entusiasta da ação pouco ortodoxa da tropa de elite carioca.
E é comum ouvir pelas ruas comentários – que alguns diriam levianos – encomiando a arrogância e crueldade do Capitão Nascimento; o tiro na cara que acabou com o funeral do Baiano, pura consciência social; os tapas do “Aspira” Matias na cara lerda do playboy traficante, em plena passeata pela paz. Catarse ou não, essa considerável parcela dos espectadores sentiu serem espetados seus espectros – com o perdão do trocadilho.
Em contrapartida, a pequena parcela da audiência pirata – chamada por Reinaldo Azevedo de “Bonde do Foucault” e por Lobão de “patrulha esquerdóide” (sic) – torceu as barbichas e embaçou os óculos de grosso aro negro com as atrocidades praticadas pelo Bope quando das operações em busca de informações e de combate ao tráfico ilícito de armas, entorpecentes etc.
Essa “minoria” costuma levantar a bandeira dos direitos humanos, da consciência social em prol de um estado menos opressor e mais assistencialista. Praguejam contra a livre iniciativa, o monstro do neoliberlismo e entoam canções de amor à igualdade. Diria, sem medo, que são resquícios de um tempo em que bandido lia Marx e Gramsci ouvindo Chico Buarque.
A questão, porém, não é estar de um ou de outro lado. Aplaudir cegamente as grosserias do Capitão Nascimento, ou espernear contra tais atitudes, é extremo do qual se deve distância – acredito, eu. É que, esperar ser a violência policial a única solução contra a criminalidade, ou desejar que a polícia brasileira “entre para guerra” com luvas de pelica, demonstra inequivocamente ingenuidade.
É lógico que, diante das circunstâncias em que o país se encontra encerrado atualmente, exige-se uma polícia mais incisiva, consciente de seu papel constitucional de manutenção da ordem – ou da “opressão”, como quer aquela minoria. Mas também, como liberal que sou, acredito dever esbarrar esse poder diante das liberdades públicas e dos demais direitos fundamentais, exigindo-se do estado respeito, em todos os sentidos, à dignidade da pessoa humana.
Batalhões policiais como os da tropa de elite carioca são importantíssimos quanto as suas operações, desde que venham acompanhadas de uma ação política no sentido de prover a sociedade civil de meios ao desenvolvimento humano e social. Largar esses grupos especiais em luta cega, colocando na “conta do papa” as mortes e torturas praticadas, é favorecer as arbitrariedades e postergar a solução do problema. Toda revolução social exige atuação política sólida para a sua consumação.
E acredito, transitando por entre o olho do furacão provocado pelo filme de José Padilha, que essa constatação tenha sido o mérito reflexivo de Tropa de Elite. Embora seja talvez uma obviedade ululante (o que, esteticamente, é irrelevante), pensar, por esta perspectiva, o problema da criminalidade no Brasil é essencial, ainda mais quando se tem uma laranjada toda podre escorrendo pacificamente no congresso nacional.
No mais, como desterrados em nossa própria terra (nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda), só nos resta a (revista) Playboy de Mônica Veloso.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 18h23
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