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Ninguagem
 


Maiakóvski

Nacos de Nuvem

 

 

 

No céu flutuavam trapos

de nuvem – quatro farrapos:

 

do primeiro ao terceiro – gente;

o quarto – um camelo errante.

 

A ele, levado pelo instinto,

no caminho se junta um quinto.

 

Do seio azul do céu, pé-ante-

pé, se desgarra um elefante.

 

Um sexto salta – parece.

Susto: o grupo desaparece.

 

E em seu rasto agora se estafa

o sol: amarela girafa.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 14h07
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Maiakóvski

Lilitchka! (em lugar de uma carta) 

 

 

 

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchónikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu hall escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
– duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.

 Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.

Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.

Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

 

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

 

 

(Tradução: Augusto de Campos)



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 14h03
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