Poesia
Madrugada
pó sobre mar-de-águas sob arcada
pós biombo as estrelas serpentes e cambraias
o chão e o campo
tudo escuro depois da praia
até o satélite-luz pálpebras sobre o olho
onde solionda a pouca lúgrima
o pó cobre
tua presença derramando
como óleo
quente
já à hora de ir embora
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 21h43
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Texto de Valberto Alves de Azevedo Filho
O que me chamou mais a atenção, dentre as diversas questões exibidas no filme Tropa de Elite, foi a da ação de combate, nas favelas cariocas, do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro, mais conhecido como Bope, ou, no jargão das ruas, faca-na-caveira.
Embora a discussão acerca do papel de parcela da sociedade civil no financiamento do tráfico seja interessante e fundamental, a violência – diga-se de passagem, “operações” – com que o Bope atua no combate ao tráfico ilícito de entorpecentes (uma das “hipérboles” do filme) não se deixa passar sem represas, isto é, sem surpresas.
Maior surpresa, na verdade, foi-me a recepção calorosa de grande parte do público pirata ao modus operandi daquele batalhão especial – digo isso, inclusive, em referência à totalidade de meus amigos. Até mesmo a grande imprensa traçou abertamente um perfil entusiasta da ação pouco ortodoxa da tropa de elite carioca.
E é comum ouvir pelas ruas comentários – que alguns diriam levianos – encomiando a arrogância e crueldade do Capitão Nascimento; o tiro na cara que acabou com o funeral do Baiano, pura consciência social; os tapas do “Aspira” Matias na cara lerda do playboy traficante, em plena passeata pela paz. Catarse ou não, essa considerável parcela dos espectadores sentiu serem espetados seus espectros – com o perdão do trocadilho.
Em contrapartida, a pequena parcela da audiência pirata – chamada por Reinaldo Azevedo de “Bonde do Foucault” e por Lobão de “patrulha esquerdóide” (sic) – torceu as barbichas e embaçou os óculos de grosso aro negro com as atrocidades praticadas pelo Bope quando das operações em busca de informações e de combate ao tráfico ilícito de armas, entorpecentes etc.
Essa “minoria” costuma levantar a bandeira dos direitos humanos, da consciência social em prol de um estado menos opressor e mais assistencialista. Praguejam contra a livre iniciativa, o monstro do neoliberlismo e entoam canções de amor à igualdade. Diria, sem medo, que são resquícios de um tempo em que bandido lia Marx e Gramsci ouvindo Chico Buarque.
A questão, porém, não é estar de um ou de outro lado. Aplaudir cegamente as grosserias do Capitão Nascimento, ou espernear contra tais atitudes, é extremo do qual se deve distância – acredito, eu. É que, esperar ser a violência policial a única solução contra a criminalidade, ou desejar que a polícia brasileira “entre para guerra” com luvas de pelica, demonstra inequivocamente ingenuidade.
É lógico que, diante das circunstâncias em que o país se encontra encerrado atualmente, exige-se uma polícia mais incisiva, consciente de seu papel constitucional de manutenção da ordem – ou da “opressão”, como quer aquela minoria. Mas também, como liberal que sou, acredito dever esbarrar esse poder diante das liberdades públicas e dos demais direitos fundamentais, exigindo-se do estado respeito, em todos os sentidos, à dignidade da pessoa humana.
Batalhões policiais como os da tropa de elite carioca são importantíssimos quanto as suas operações, desde que venham acompanhadas de uma ação política no sentido de prover a sociedade civil de meios ao desenvolvimento humano e social. Largar esses grupos especiais em luta cega, colocando na “conta do papa” as mortes e torturas praticadas, é favorecer as arbitrariedades e postergar a solução do problema. Toda revolução social exige atuação política sólida para a sua consumação.
E acredito, transitando por entre o olho do furacão provocado pelo filme de José Padilha, que essa constatação tenha sido o mérito reflexivo de Tropa de Elite. Embora seja talvez uma obviedade ululante (o que, esteticamente, é irrelevante), pensar, por esta perspectiva, o problema da criminalidade no Brasil é essencial, ainda mais quando se tem uma laranjada toda podre escorrendo pacificamente no congresso nacional.
No mais, como desterrados em nossa própria terra (nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda), só nos resta a (revista) Playboy de Mônica Veloso.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 18h23
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