Primeira parte
Bere’shith – cena da origem: a transcriação da poesia da Criação
Daniel Sampaio de Azevedo*
I
A controvérsia sobre a tradução de poesia parece ter se afastado da pauta crítica brasileira de uns anos para cá. Em verdade, não temos, em termos gerais, uma discussão habitual sobre a poesia e suas possibilidades de tradução. Mesmo assim, há uma produção considerável de traduções no Brasil, inclusive quanto à divulgação de poetas latino-americanos contemporâneos, que vem sendo realizada por Cláudio Daniel, Glauco Mattoso e Josely Vianna Baptista. Cite-se o Caribe Transplatino, com traduções desta última, e Jardim de Camaleões, dos dois primeiros. Contudo, os nomes que mais se sobressaem, e que formam uma espécie de cânone marginal da tradução de poesia no Brasil, são os nomes de Augusto e Haroldo de Campos. Criadores, ao lado de Décio Pignatari, do movimento de Poesia Concreta, estes poetas desde a década de 50 se empenharam no exercício da tradução criativa de poesia, seguindo a lição de Ezra Pound, para divulgar o Paideuma da vanguarda concretista. Poetas, que à época eram ignorados pelo público, como Stéphane Mallarmé, e.e. cummings (grafado assim em minúsculas), o próprio Ezra Pound e o James Joyce de Finnegans Wake foram os primeiros a serem objetos desse projeto concretista de tradução criativa de poesia. Mas quem melhor sintetizou a urgência de traduzir poesia criativamente foi o lingüista Roman Jakobson, que afirmou:
Em poesia, as equações verbais são elevadas à categoria de princípio construtivo do texto. (...). O trocadilho, ou para empregar um termo mais erudito e talvez mais preciso, a paronomásia, reina na arte poética; quer esta denominação seja absoluta ou limitada, a poesia, por definição, é intraduzível. Só é possível a transposição criativa (...).
Transposição criativa seria a conformação de aspectos estéticos de uma língua em outra. Ao invés de o tradutor apenas transpor o conteúdo do texto traduzido, passaria a inscrever também em sua própria língua as marcas estéticas – poéticas – da obra em tradução. É um processo que ao tradutor exige qualidades de um autêntico criador; como se trata de poesia, a sua tradução requer um esforço de poeta, uma recriação “formal” para que, no ato de transposição, seja mantida a atmosfera de arte verbal que caracteriza a “differentia specifica” do texto poético. Por esta razão, provavelmente, Haroldo de Campos denominou a tradução criativa como “transcriação”, enquanto Augusto de Campos a nomeou como “tradução-arte”. Este, aliás, publicou, ao final da década de 1980, um livro precioso no qual trabalha a criação como crítica e a crítica por meio da tradução: educação dos cincos sentidos que Ezra Pound sugeriu ao ver na tradução o meio mais eficiente e honesto de crítica literária. Para os curiosos, o título da preciosidade é, por coincidência, Anticrítico (ou, como alguns burocratas da poesia preferem, “Anticristo”) e há nele uma passagem belíssima na qual o poetamenos cordialmente defende:
O que abomino são os críticos que praticam aquilo que já chamei de “dialética da maledicência”. Os que não iluminam nem se deixam iluminar. Os desconfiados e os ressentidos com a sua própria incompetência cósmica para entender ou criar qualquer coisa de novo. Aqueles a que Pound se referia como a “vermina pestilente”: os que desviam a atenção dos melhores para os de 2ª categoria ou para os seus próprios escritos críticos.
Contra esses eu sou. E é a eles que este meu livro – crítica de amor e de amador, crítica via tradução criativa – dirige a seta do seu “anti”. Mas a minha meta é outra. A minha meta é a poesia, que – de Dante a Cage – é cor, é som, é fracasso de sucesso, e não passa de uma conferência sobre o nada.
Seria o caso, então, de acreditar que se trataria da própria incapacidade de parte de nossa crítica em compreender a tradução de poesia como um fenômeno estético autônomo, cuja essencialidade está igualmente na novidade que permanece novidade – desculpando, desde logo, o necessário chavão? De toda forma, ainda que não se tenha acesso fácil a certas línguas, como o russo, ou o alemão, ou o japonês, ao crítico que tem sensibilidade para reconhecer a diferença específica da poesia, a simples leitura da tradução, ou transcriação, é bastante para reconhecer uma qualidade poética – estética – no texto traduzido, suficiente para bem qualificá-lo. Posso ler as transposições criativas de Haroldo de Campos para a Ilíada de Homero, mesmo sem dominar o grego, e ver ali um épico em português de excelsa qualidade. Augusto de Campos, por exemplo, quando se confrontou com as traduções de Antônio Risério para os cantos Orikis, argumentou que, mesmo não conhecendo a língua de origem, o iorubá, pôde apreciar a grande qualidade dos poemas da tradução: “Não conhecendo a língua nem sendo um especialista da cultura iorubá (...) guio-me, neste caso, em primeiro lugar pelos resultados, que apontam para a construção de apreciáveis poemas em português”. Sendo assim, é neste passo que li as traduções, diretamente do hebraico, de Haroldo de Campos para o Gênese – ou na tradição judaica, Bere’shith – e passo a tecer alguns comentários, eivados, desculpem-me, de muita fé na poesia.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 22h22
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