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Ninguagem
 


Crítica

            O livro de estréia do poeta Paulo de Toledo, "51 Mendicantos" (2007, ed. Éblis), abre-se para o leitor numa sucessão de flashs. É como se fosse uma série fotográfica que retratasse o cotidiano marginal das ruas, tendo como modelo a figura do mendigo, em toda a sua indignidade.

            São momentos de humor em que o leitor, ora se compadece, ora sorri, alentado muita vez pelo próprio jogo que são os poemas, escritos como que com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” machadianas.

 

globalizado

 

a tv o mendigo olha

na tela o reflexo dele

desculpem a nossa falha.

 

            O marcante, porém, é a relação que se estabelece entre o luxo e o lixo da sociedade – a condição marginal do mendigo e os objetos da alta civilização que lhe excluem. Trata-se daquela situação que Augusto de Campos bem (re) produziu em seu poema Luxo, de 1965: todo luxo é constituído por “lixos”.

            Essa referência ao poeta concreto, no entanto, não é gratuita. A poesia de Paulo de Toledo demonstra ter deglutido e devorado, até a última sobra, a obra de Augusto de Campos, inclusive no que ela tem de negação por postura ética – sustentada a todo custo, nestes últimos 50 anos, pelo autor de "VIVA-VAIA".

            Tal postura, aliás, faz o leitor intuir que aquele mendigo, achincalhado nos versos de "51 Mendicantos", nada mais é do que a figura metafórica do próprio poeta – ser sujeito à margem da margem como um “bicho inodoro em seu laboratório sem sol ou salário” (Augusto de Campos).

            Esgarçado pela sociedade do mass media, onde todo produto deve ser um produto cultural de utilidade imediata, o poeta instala-se nas sarjetas para dar “com o pé no lixo da supercivilidade” (Eça de Queirós), e transformar a matéria-lixo de sua era em obra-prima atemporal:

 

cachaça n.° 5

 

pra marilyn bastava do chanel um pingo

pro mendigo pro sono a pinga

no lixo vazios o frasco e o casco

 

            É como certa vez escreveu Carlos Ávila, citando Octavio Paz: “Instalado em seu subterrâneo (...), o poeta preserva ‘a arte que mais sofreu com o mercantilismo atual’, mantendo-a viva como um instrumento poderoso de aferição das contradições e ambigüidades do processo cultural a que assiste”.

            O poeta, como o mendigo, encontra-se solitário e marginalizado diante do trânsito opressivo da pós-modernidade, tentando manter-se vivo e fazer sobreviver, a custo de sua própria utilidade, a vida (arte) que pratica. E acaba por se pôr em xeque:

 

perdeu a cabeça

 

to drink why not to drink

that’s the question

declama o cadavérico mendigo

 

            A poesia de Paulo de Toledo, portanto, além de um close-up marginal sobre a vida e o que ela tem de mais galhofeiro e ignóbil, consegue projetar, sem pudicícia ou inocência, o problema da situação da arte poética em pleno século XXI. Seus "51 mendicantos" operam, não apenas o grito dos menos favorecidos, mas uma reflexão robusta sobre o lixo e o luxo da vida e da poesia.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 00h55
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