Na história do rock, muitas bandas já conceberam álbuns conceituais. Associando o prazer da fruição auditiva à reflexão conceitual, esses álbuns não têm interesse apenas na simples veiculação da mensagem musical, mas investem na transmissão inequívoca de uma experiência estética. Um dos exemplos mais radicais seja, talvez, o de "Dark Side of the Moon", do britânico Pink Floyd, cuja audição, por razões hostis, só vim ter há poucos dias, quando encontrei o disco por um preço mísero.
No Brasil, pelo que tenho conhecimento, pode-se dizer que a obra coletiva "Tropicália" seja conceitual (embora Caetano negue essa qualidade). Com mais segurança, "Araçá Azul" poderia ser também classificado como tal, inclusive como álbum de rock, se assim se compreender pela explosão do som. Mas, no âmbito estreito do rock brasileiro, o que me chamou muito a atenção, dentre os conceituais, foi "Cabeça Dinossauro" dos Titãs, lançado no ano de 1986, quando o Brasil então saía de uma ditadura.
Da primeira à última faixa, o disco ensurdece como um grito de vários timbres, flutuando no espaço curvo das cidades. "Cabeça Dinossauro", faixa título, trabalha com uma percussão brutalista, imprimindo um ritmo que repercute nos versos consonantais e reiterativos da sintaxe de pedra do texto: "Cabeça Dinossauro/ Cabeça Dinossauro/ cabeça cabeça/ Cabeça Dinossauro// Pança de mamute/ Pança de mamute/ pança pança/ Pança de Mamute// Espírito de porco/ Espírito de porco/ espírito espírito/ Espírito de porco".
O conceito de "Cabeça Dinossauro" está atrelado ao esfacelamento e embrutecimento do homem contemporâneo, cego de tanto enxergar e surdo de tanto escutar. Esse desespero incita o homem a gritar ("AA UU"), a espancar ("Porrada"), e o leva a se perder na incerteza de si mesmo ("o que é o que não pode ser que não é..." de "O Que"). É sintomática a canção "Homem Primata", em cujo tom pop, destoando do peso geral (o que soa irônico), o eu lírico brinca e canta: "Eu me perdi na selva de pedras/ Eu me perdi, eu me perdi".
Mas a canção que melhor sintetiza a concepção de "Cabeça Dinossauro" é a "Face do Destruidor". Ali, tem-se um hardcore de 0,35´, cantado com uma ultraviolence que lembra a loucura futurista de Anthony Burgess e Stanley Kubric. E como que se referindo à apocalipse urbana, o (des)equilíbrio entre texto e melodia, na (des)construção da música pela explosão do som (ouçam Edgar Varèse), prenuncia: "O destruidor não pode mais destruir/ Porque o construtor não constrói"...
Sinal dos tempos: a cabeça ouvindo as pedras.