A estréia literária é sempre difícil, embora seja muito fácil publicar um livro hoje em dia. É que, quando se leva a sério o ofício, tudo fica espezinhado. E quando digo levar a sério, quero sugerir aquela solução já conhecida (e, por muitos, criticada) do ostinato rigore – o obstinado rigor. A consciência crítica, para aqueles que seguem esta ética, é sempre um chiclete na sola do sapato.
Mas como havia dito, é muito fácil publicar um livro nos dias de hoje, principalmente quando o Poder Público patrocina, por meio de concursos, a editoração etc. dos livros concorrentes. Às vezes o resultado é uma maravilha, um tiro de flecha no peito do alvo, mas, às vezes, sai pela culatra, mesmo quando revela pequenas potencialidades – promessas de arranjo melhor.
Acredito que a segunda hipótese tenha acontecido no último concurso promovido pela FUNJOPE, no ano de 2006 (com a publicação em 2007). Na oportunidade, foram eleitos vencedores Renálide Carvalho e IkaRo MaxX, este com Um cristo Cuspido no Espelho do Século e aquela com Poemas a Vapor. Mas, pelo curto espaço e pela maior atenção dada, vou me resumir a Renálide.
“Poemas a Vapor” é curto e indeciso. A autora demonstra que não teve paciência para trabalhar seus poemas, apesar de alguns deles conterem apenas bons versos, como Modernodes, em que se encontra a sinestésica imagem “O cheiro da borra rodeada de moscas” e o sonoro verso “Arre, escarrarei um canto aos carros e aos movimentos vadios”, cuja aliteração esparge o arranco enraivecido do eu lírico.
Outro momento interessante do livro é o poema Complexo Vicioso, sobre o que Renálide trabalha próxima à sintaxe de Gertrude Stein. O verso reiterado e circular de “a rose is a rose is a rose” é fundamento para “... sua ame sua mummy sua ame sua mãe...”, a despeito da obviedade entre a imagem formada do seio e o trocadilho entre “mummy” (correlato de “mamãe” em inglês) e “mame” (forma verbal de mamar).
Mas o livro, salvo ainda raríssimas exceções (como o poema Pente), pára por aí. Quando terminei de ler Poemas a Vapor tive a sensação de que ele saiu às pressas. Parece ter faltado à Renálide aquele ostinato rigore de que falei no início, pois como ela poderia fazer, por exemplo, o bobo trocadilho: “... LO BO LO BO LO...”, só para explicar a infantilização do medo?
Não sei. Sei, apenas, que a poesia dela evaporou.