Embora o “Bloomsday” tenha passado em branco por aqui em João Pessoa (se noticiado, o foi apenas por uma notinha de obituário), no resto do Brasil foi comemorado com vasta agenda. Em São Paulo, por exemplo, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura muita coisa aconteceu, desde palestras a leituras de trechos do romance “Ulysses” no original (!).
Soube também que em Natal nossos vizinhos festejaram o dia 16 (que é o dia-narrativo de “Ulysses”) com a presença do poeta Décio Pignatari, já octogenário. Foi uma decepção por dois motivos: o primeiro, porque não pude ir àquela cidade por razões pessoais e profissionais; o segundo, porque quem organizou a festança foi a UFRN, que no ano de 2005 trouxe o poeta Augusto de Campos, quando este então lançava o seu livro de poemas “Não” (Ed. Perspectiva).
Comparei de imediato a UFRN com a nossa UFPB. Daí a decepção.
Fiz no campus de João Pessoa o curso de Letras, que não cheguei a terminar. Tive bons e excelentes professores, tanto em Literatura quanto em Língua e Lingüística. Mas era raro presenciar eventos literários como o “Bloomsday”, que sempre era esquecido. A única vez que participei de evento parecido foi logo no início do curso, em 2002. Era o centenário de Carlos Drummond de Andrade.
Depois, jamais.
Posso estar julgando baseado em tendências ou gosto literários. Mas se não fosse, por exemplo, por Amador Ribeiro Neto, a Poesia Concreta jamais seria ensinada (pelos menos sem os preconceitos habituais) no curso de Letras. E eu adoro a Poesia Concreta. Foi por ela, inclusive, que conheci a obra de James Joyce, principalmente o “Finnegans Wake”, a partir dos trechos escolhidos e traduzidos pelos irmãos Campos.
Joyce é um escritor primordial. Quando li pela primeira vez os contos de “Dublinenses”, surpreendi-me com a concisão e economia narrativas em depurado realismo. Foi-me notável aquele mérito que Ezra Pound lhe incutiu: “ele evita cuidadosamente dizer aquilo que o leitor não quer saber”.
Enfim, fiquei transtornado. Ou como diria o personagem do conto “Araby”, em trocadilho intraduzível: “... and my eyes burned with anguish and anger”.