Por uma bofetada no gosto público
A cidade de João Pessoa carece de eventos literários. Isto é uma constatação que se faz com certa obviedade. Mas a causa desse efeito indesejado, para ficar no nível cartesiano comum, atribui-se geralmente a não iniciativa dos letrados, escritores ou de poetas que deveriam, à vista de tal situação, sair de suas tocas e agitar o marasmo com manifestos, atitude e tudo aquilo que se espera de um artista, digamos... romantizado – no sentido técnico da palavra, só para não causar confusão aos cartesianos.
Particularmente não acredito que esteja aí o problema. Valiosíssima a intenção de alguns em promover encontros, colóquios e todo o tipo de agitação. Reclamei, por exemplo, do silêncio que na Paraíba (em especial, na UFPB) se fez quando da comemoração do Bloomsday. Fiquei até constrangido, na oportunidade. Só que ressalvo, aqui, a teatralidade com que certos eventos do tipo são tomados. Alguns, pela incompetência estética, são apenas manifestações de choque, coqueluche adolescente. Quem os promove, geralmente aquele tipo “underground” – porra-louca –, faz do cenário um espetáculo estapafúrdio, cujo único mérito é não resultar em nada.
Tô aqui procês, chupins!
É por isso que prefiro o silêncio, embora este silêncio seja diferente daquele do qual reclamei em relação ao Bloomsday. A poesia não precisa de auditórios, de capas de jornal ou de matérias televisivas. A poesia não precisa da fama, do choque gratuito; de atitudes rebeldes adolescentes, pseudo-beatinik. A poesia não é moeda de troca; não é motivo de coluna social; não é nada de nada além dela mesma, naquilo que ela tem de semiótico e de reinvenção do sensível através da linguagem.
Faço das palavras de Paul Valéry as minhas, quando ele diz, criticando o realismo francês, que o real na arte é a própria arte. Sincrônico, Amador Ribeiro Neto esclarece o dito: “a poesia que dialoga com a pós-modernidade é aquela que assume a falência das utopias, centrando-se na construção intrínseca das linguagens artísticas. Nestes tempos de fim das narrativas históricas é impossível (ou ingênuo) pensar esperanças”. E eu não penso.
Mas que se promovam eventos, festas, movimentos, desde que o barulho a ser feito não perca de vista a poesia com P maiúsculo, pois se quiserem encaldeirar cultural e artisticamente a cidade de João Pessoa, que façam de modo salutar: sem forma revolucionária não há arte revolucionária, segundo a “lavagem cerebral” maiakovskiana: uma bofetada no gosto público.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 10h52
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