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Ninguagem
 


Pouca coisa ou muito

           Ela recostada. Olhava e olhava, sem dizer. Vestia branco e jeans. Uma garça e seu pouso contra um poente cinza, cinzelado de carros e paredes subterrâneas. Minhas palavras se soltavam e nada do que eu falava era-lhe crível. Talvez ela tenha voltado ao seu vôo de anos atrás, de memórias (ao menos as boas). Mas ela olhava e, calada, pôs as mãos sobre os joelhos, tentando entender o que eu lhe contava. Em vão: sua boca tremia e somente os seus olhos, pequenas moedas de um celeste negro, iluminavam o que vento arrancava de minha boca. Nenhum beijo, por sinal. Somente palavras que lhe pareciam vazias. E eu não tive coragem de olhar aquele céu. Míope, continuei falando. Rouco, continuei estanque. Queria lhe dar um abraço, apertá-la ao peito: beijá-la. Mas entre nós dois um impasse e um tempo para ela incompreensíveis. Tirou uma das mãos que havia posto sobre os joelhos. Buscou um lenço e limpou o rosto. O pulso dela balançou o brilho fosco de um relógio branco como sua camisa, incerto como a minha voz. Calei-me um instante e voltei a falar uma ária quase choro. Rouco e Míope. E ela me olhava, olhava, sem dizer. Talvez ela não estivesse ali. Estava de certo em seu ninho de lembranças ou voando por aí em algum lugar do passado. Passando de uma imagem a outra, sem som, sem cor. Só formas de felicidade frágil. Parei de falar e tentei fechar os olhos para não chorar. Olhei para os lados e vi que ainda era um estacionamento. Vi que ela me olhava como um buraco negro expande sua destruição. Sua fome de sentido e de amor. Eu também tenho fome, era o que eu teria lhe dito ali na hora se a mutilação não me arrancasse o que eu construí por amor. Peguei a mão dela e beijei. Beijei outra vez até que ela, fazendo o mesmo, beijou a minha mão e me disse duas palavras que eu jamais vou esquecer... E ela me disse com graça, com uma inocência imprevista que me fez chorar sem diques. Inundei minha vida inteira. Inundei o carro e percebi, naquele mesmo instante, a decisão que eu tomaria. Fixei meus olhos nela. Quis beijá-la novamente. Abraçá-la. E vi que ela então já não me olhava ou sequer espiava. Tudo agora era sem palavras. E senti que o que eu tinha feito ali, num estacionamento, jogaria para sempre minha alma numa latrina...

            Preciso de um banho por dentro.



Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 20h17
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