Samba de uma nota só
Certo amigo meu, lendo minhas colunas, reclamou de certa monotonia da visão que tenho sobre arte, crítica e sobre poesia. Disse que eu batia um samba de uma nota só, e parecia que era leitor de um único repertório – isto é, de certa forma, alienado. Tentei justificar, é claro. Mas o cara foi irredutível: era preciso que eu abrisse um pouco mais minha cabeça (e olhos) e compreendesse outros argumentos para, discutindo-os, reforçar as minhas próprias idéias. Bingo!
O problema, no entanto, não está aí. O brasileiro comum ainda tem uma visão romantizada de muita coisa. Sou advogado, e vejo que nesse meio se valoriza demais as frases de efeito, os retoricismos “acanêmicos” e toda sorte de preciosismos cujo único intuito é de falsear o vazio semântico do discurso... como sepulcros caiados, naquela boa e pertinente imagem do evangelho...
Com a arte em geral e, especificamente, com a poesia, o cenário não é diferente. Pinta-se como há 500 anos – leia-se a coluna de Amador Ribeiro Neto sobre o absurdo da Estação Ciência. Escreve-se, também, como há 100, 300 anos. E com a poesia é ainda pior, porque, sob o pavor da poesia romântica, ainda a mais lida entre os jovens (justamente na época de formação – deformação, no caso), acha-se que ela, a mais difícil das artes, a mais fácil, sujeita à (e irmã dileta da) inspiração. É só fazer um verso “bonitinho” (às vezes nem tanto) e plenamente assimilável para ser boa poesia...
O que é mais pernicioso, contudo, não é exatamente o despreparo do leitor, mas do crítico e do teórico da literatura. Digo isto porque passei quase quatro anos na faculdade de Letras da UFPB e, salvo por raríssimas exceções, empurraram-me goela adentro aquela polícia crítica que Jakobson denunciou no início do século 20. Em poesia vê-se tudo (psicologia, sociologia, história etc.), menos a poesia, e alguns chegam ao absurdo de querer fazer dela um exercício socrático; outros de panfleto...
Eu vou voltar ao assunto aqui, discutir reiteradas vezes. Mas, antes de dar cabo a esse texto, volto às considerações que aqui já fiz. O grande problema do ensino e da crítica de poesia e da literatura (talvez da arte em geral) é a incompetência crítica e criativa de quem deveria perceber que o objeto de que se valem é antes de tudo, como disse Haroldo de Campos, linguagem em alta voltagem.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 09h02
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