Man in the Dark (Henry Holt, 2008), o mais recente romance do escritor norte-americano Paul Auster, é a narrativa de uma noite insone do crítico literário August Brill, 70 anos, que, vitimado por um acidente de carro que o deixou em uma cadeira de rodas, passa todas as noites narrando para si ficções enquanto a insônia o aflige. A história basicamente se desenvolve sem qualquer interlocutor presente, quando, já ao final, Brill recebe em seu quarto sua neta, também insone, que o faz confrontar o passado, a exemplo da lembrança problemática de sua vida conjugal.
É justamente os atropelos da vida que faz com que Brill se dedique à ficção durante as noites de insônia. Construindo-a, ele busca se distanciar das amarguras de sua filha, de sua neta e de suas memórias. Mas o pulso de suas narrativas não é forte o suficiente para conter a insipidez de sua vida; Brill as interrompe ao menor ruído no interior da casa ou por um simples lapso de memória, algum personagem ou objeto imaginado que o faz lembrar de algum episódio de sua biografia.
Sobre o entrelaçamento de imaginação e memória é que o romance de Paul Auster ergue sua estrutura. Conquanto seja uma espécie de monólogo, a narrativa de August Brill é entrecortada por narrativas paralelas, tal como o mundo em que vive o seu então personagem da noite narrada, o mágico Owen Brick, que, de uma hora para outra, vê-se numa realidade alternativa, em que os Estados Unidos estão em Guerra Civil entre separatistas e o Estado Federal.
São como histórias “de guerra. É só deixar a guarda baixar, que elas vêm rasgando sobre você, uma por uma por uma...”, diz Brill.
A vida de familiares, amigos e conhecidos de August Brill vão, assim, entremeando-se a sua e a de suas criações, estando sempre relacionada a guerras em que os Estados Unidos estiveram presentes – da Segunda Guerra à atual no Iraque. E quanto mais Brill se afunda nestas narrativas, à medida que a noite vai se aprofundando até o amanhecer, mais e mais o tom amargo da prosa de Man in the Dark se intensifica, alcançando, ao final, sua redenção, embora esta seja um tanto blasé.
E não importa o destino que as coisas tomam, pois como disse Brill a sua filha Miriam, citando verso da filha de Nathaniel Hawthorne: “o estranho mundo continua”.