Rita no Pomar
Lançado este ano pela Editora 7Letras, Rita no Pomar, romance de Rinaldo de Fernandes, transita entre diacronia e sincronia. Não atribuo a estes termos o mesmo sentido que a Semiótica e a Lingüística costumam usar, mas faço uso deles aqui para indicar categorias de unidade de tempo narrativo, a partir do que a estrutura da história confessional da personagem Rita é construída.
Pode parecer, à primeira vista, um estilhaço desordenado de episódios, sobretudo diante das frustrações reticentes e recônditas de Rita, que, solitária em uma praia fictícia do litoral paraibano – a praia do Pomar –, passa as horas vagas ao lado de Pet, seu cachorro de estimação, lembrando do passado, de sua vida em São Paulo e de seus amores perdidos, André e Pedro.
O leitor, então, vai identificando que a narrativa, embora episódica, tem uma marcação de tempo definida, principalmente linear. Além do “monólogo-a-dois” (como bem identificou Silviano Santiago no pósfacio ao livro) entre Rita e seu cachorro, é apresentado um diário, onde o tempo se torna cristalino, pois, cronologicamente, Rita vai pondo no papel tudo o que se passou durante o dia. E é aí que o trânsito entre diacronia e sincronia mais se explicita.
Neste diário, Rita não se restringe a contar os fatos do dia, mas as lembranças que lhe surgiram quando ela conversava com Pet. É como se ela estivesse revivendo o passado mediante seu relato naquele “monólogo-a-dois” e, pondo-os por escrito no diário, conferisse a eles a solidificação de uma experiência revivida, ainda que sob as reticências de seus pensamentos inconfessados.
Tem-se, então, uma sincronia e diacronia entre passado e presente. Ao tempo que a narrativa se desenvolve temporalmente até a confissão de Rita sobre os motivos que a levaram para a praia do Pomar (o primeiro registro do diário é 23 de janeiro, concluindo-se em 26 de abril), ela se desenvolve atemporalmente pela recomposição do passado, cuja lembrança faz Rita, finalmente, confessar os crimes que cometeu.
O trânsito entre diacronia e sincronia, portanto, enquanto elemento estrutural de Rita no Pomar encontra na confissão o seu ponto de convergência. E não poderia ser diferente, dado que a personagem de Rita, como August Brill do romance “Man in the Dark” de Paul Auster, é vítima de um passado que a assola no presente e que ela mesma, como ré confessa, foi a “única” responsável por ele existir.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 11h01
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