Festival Mozart
Encantamento é a palavra que melhor calha às sensações do expectador ao sair do Concerto Oficial - Festival Mozart promovido pela FUNJOPE, no último dia 28 de novembro de 2008, sexta-feira, no Cine Bangüê. A Orquestra de Câmara da Cidade de João Pessoa - OCCJP, sob a regência do Maestro argentino Miguel Angel Gilardi, executou excelentemente peças de Wolfgang Amadeus Mozart, tendo por repertório desde a desconhecida Serenata Notturna em Re M. à conhecida ópera A Flauta Mágica.
É uma pena que um concerto como este seja tão raro. Não fosse a persistência de certos setores governamentais, nada teríamos de música erudita - o que é lastimável, expressão de uma educação musical desviada. Mas o assunto é outro, e não devo divagar, porque as atenções devem se voltar para a OCCJP, seu maestro e, sobretudo, para argentina Gabriela Cecilia Guzzo e a paraibana Maria Juliana - solistas da noite.
Fiquei muito impressionando com a força do canto das duas. Na ária Lamento de Pamina, trecho da ópera A Flauta Mágica, Gabriela Guzzo demonstrou um equilíbrio prefeito da voz, sustentando-a harmonicamente nos momentos mais agudos. Maria Juliana, por outro lado, quando executou a Ária de Cherubino, da ópera Bodas de Fígaro, apesar de não ter demonstrado a serenidade de Gabriela, foi mais apaixonada e intensa no colorido de seu grave feminil.
O momento clímax - como era de se esperar - foi o dueto que as duas fizeram - ou "rivalizaram". Tratava-se da Sull Aria, também das Bodas de Fígaro - uma peça de beleza lírica despojada. Uma e outra executaram seu canto com perfeição e deram ainda mais força à afiada OCCJP. Mas, ainda que as duas solistas tivessem se ombreado no estilo, fiquei mesmo embevecido com a atuação de Maria Juliana, que se mostrou tão elegante e, acima de tudo, apaixonante - imaginei, inclusive, como é que ficaria na sua voz a difícil Sprechgesang do Pierrot Lunaire de Arnold Schoenberg...
Foi uma sexta-feira atípica no cenário cultural da cidade de João Pessoa. Saí de lá - como havia dito - encantado, com a esperança de ter a oportunidade de, quem sabe, ouvir outras vezes a OCCJP e suas duas solistas juntas, qualquer que seja o repertório, de Mozart à Webern, mas desde que seja erudito, para que possamos acabar com o estigma de que estamos chagados: o de sermos um país de surdos-músicos.
Escrito por Daniel Sampaio de Azevedo às 10h24
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